Quando o frio vai embora, é comum mudar roupas, alimentação, horários e até a temperatura do banho. Mas, muitas vezes, os cuidados com a pele permanecem exatamente os mesmos durante todo o ano. Para o Ayurveda, tradição milenar de origem indiana, observar as mudanças da natureza e adaptar os hábitos a elas faz parte de uma rotina de autocuidado mais consciente. “Se a natureza muda o tempo inteiro, por que o nosso cuidado precisaria permanecer igual? Para mim, essa é uma das coisas mais bonitas que o Ayurveda ensina: observar antes de simplesmente repetir”, explica Nina Habib, terapeuta ayurvédica, escritora, chef medicinal e fundadora da Taila Veda.
Na primavera, a elevação gradual das temperaturas e as alterações na umidade podem modificar a maneira como a pele se apresenta. Algumas pessoas percebem aumento da oleosidade e da transpiração, enquanto outras continuam enfrentando ressecamento ou passam a notar maior sensibilidade. Por isso, a chegada da nova estação não significa necessariamente trocar todos os produtos, mas observar o que mudou.
Na visão ayurvédica, fatores como calor, umidade, secura e sensibilidade devem ser considerados, assim como o clima da região onde a pessoa vive. No Brasil, essa avaliação ganha importância pelas diferenças entre as condições climáticas de cada região. “Eu não gosto de pensar em cuidado como uma receita pronta. Chegou a primavera, então todo mundo precisa fazer a mesma coisa. Não. O Ayurveda nos dá princípios para entender as qualidades que estão presentes e, a partir delas, fazer escolhas”, afirma Nina.
Tradicionalmente, a primavera é associada ao dosha Kapha, relacionado aos elementos terra e água e a características como umidade, estabilidade e peso. No entanto, a especialista ressalta que essa referência não deve ser aplicada de forma automática. Para ela, é necessário considerar as condições reais do ambiente e as características apresentadas por cada pessoa.
A mesma lógica vale para o uso de óleos corporais. Dias mais quentes não significam necessariamente suspender o seu uso. É possível ajustar quantidade, frequência e tipo de óleo utilizado. O gergelim, por exemplo, é tradicionalmente associado a propriedades aquecedoras e nutritivas, enquanto o coco é considerado refrescante.
Além da pele, a mudança de estação também pode influenciar os cuidados com o couro cabeludo, que pode responder ao aumento da temperatura e da transpiração. Práticas como o Shiroabhyanga, técnica de oleação do couro cabeludo, podem fazer parte da rotina, com adaptações de acordo com as necessidades individuais.
A proposta também se estende à alimentação e aos hábitos diários. Na tradição ayurvédica, práticas de Dinacharya, nome dado à rotina diária de autocuidado, podem ser incorporadas ao cotidiano. É o caso da raspagem da língua e de preparações que utilizam especiarias tradicionalmente associadas ao equilíbrio de determinadas qualidades.
A Taila Veda reúne essa proposta no Kit Primavera, que inclui sete itens voltados a diferentes aspectos do autocuidado. Entre eles estão o Chá Kapha, com cravo, canela, gengibre, pimenta preta e cardamomo; o Massala Kapha; o Escalda Pés Pada Shodhana, com neem, Triphala, hortelã, gengibre e quartzo; e um mini raspador de língua. A seleção também contempla produtos para cuidados corporais e capilares. A proposta é compreender o contexto e adaptar os cuidados. “A natureza muda. O seu ritual pode mudar com ela”, resume Nina.
As práticas ayurvédicas podem fazer parte de uma rotina de bem-estar, mas não substituem avaliação ou tratamento médico. Em caso de alterações persistentes na pele ou no couro cabeludo, o recomendado é buscar orientação de um profissional de Saúde.



