Mutirões na saúde em Araruama: solução estrutural ou ação pontual de governo?

Visita da prefeita ao PAM e anúncio de cirurgias e consultas em mutirão revelam esforço emergencial, mas expõem fragilidades crônicas da rede municipal.

A visita da prefeita Daniela Soares ao Pronto Atendimento Municipal (PAM), acompanhada do secretário de Saúde, Mário Jorge Espinhara, é um gesto político importante de aproximação com a realidade do serviço. Ao percorrer salas, ouvir médicos e pacientes e anunciar medidas imediatas, a gestão sinaliza sensibilidade às queixas da população e tenta responder à pressão sobre o sistema de saúde. No entanto, o fato de ser necessária a presença da chefe do Executivo para identificar problemas básicos revela, por si só, que a rotina de monitoramento e avaliação da rede não tem sido suficiente.

Os mutirões de cirurgias e consultas, anunciados como solução para reduzir a demanda reprimida, cumprem um papel emergencial, mas não atacam a raiz do problema. A realização de apenas 16 cirurgias de vesícula, concentradas em um fim de semana, evidencia o tamanho do passivo acumulado e a incapacidade do sistema regular esse fluxo em condições normais de funcionamento. O mesmo vale para o mutirão de consultas clínicas no sábado seguinte: é uma medida paliativa que tende a aliviar momentaneamente filas, sem corrigir falhas de gestão, subdimensionamento de equipes ou carências estruturais do atendimento básico e ambulatorial.

Ao apostar em mutirões de fim de semana como símbolo de eficiência, a Prefeitura corre o risco de transformar o extraordinário em regra, normalizando uma lógica de “força-tarefa” que mascara deficiências diárias. A verdadeira humanização do atendimento, defendida pelo secretário, exige mais do que ações episódicas e discursos otimistas: requer planejamento de médio e longo prazo, ampliação permanente da capacidade instalada, transparência em filas de espera, qualificação das equipes e fortalecimento da atenção primária, que evita que casos simples se transformem em urgências.

Não se trata de negar a importância das iniciativas anunciadas, que podem trazer alívio real a quem espera há meses por uma cirurgia ou consulta. Mas um sistema de saúde digno não pode depender da boa vontade de um mutirão eventual nem de visitas pontuais para funcionar melhor. O desafio da gestão em Araruama é transformar essas ações emergenciais em ponto de partida para uma política de saúde mais robusta, contínua e transparente, em que o cidadão não precise aguardar o próximo sábado de mobilização para ver seu direito à saúde minimamente respeitado.

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